DECLARAÇÃO
SOBRE ASSÉDIO
O MOVAUT (Movimento Autogestionário), núcleo de Goiás, vem
publicamente se posicionar contra repetidos atos de assédio (moral e sexual) e
práticas semelhantes e próximas (importunação sexual, abuso de poder,
perseguição, autoritarismo, por exemplo) que são constantes em nossa sociedade.
A sociedade capitalista vive sob o signo da hipocrisia, da
mentira e de outros processos que foram banalizados e tornados “normais” e
“comuns”. Desde a escravidão negra, um crime mais do que hediondo contra uma
parte da humanidade e em total antagonismo com o processo de humanização que se
busca efetivar a duras penas, esses processos existem e alguns são
naturalizados culturalmente, justificados ideologicamente e aceitos
praticamente, desde que emergiu o capitalismo. Sem dúvida, antes do capitalismo
algumas dessas formas de desumanização já existiam, mas foram adaptadas,
moderadas, intensificadas, dependendo de qual forma se tratava, e outras novas
emergiram.
A sociedade capitalista promoveu alguns poucos elementos de
avanço da humanização e bloqueou vários outros, devido aos interesses da classe
dominante e envolvidos na reprodução dessa sociedade. Ações que deveriam ser
repudiadas e condenadas, mesmo dentro dos limites do capitalismo, como o
homicídio, o estupro, a escravização, ainda permanecem e o silêncio e a
impunidade reinam sobre elas, em muitos casos.
Com o avanço do capitalismo, as mutações tecnológicas e
maior facilidade de comunicação, muitos processos sociais sofreram alteração.
Tanto para melhor quanto para pior. O controle social (visando apenas a
reprodução das relações de produção capitalistas ou, pior, de governos) se
intensificou com uso das novas tecnologias. No entanto, a percepção da
existência do assédio foi um pequeno avanço nesse contexto de retrocessos. O
assédio moral, tão comum nas relações de trabalho, atinge e prejudica milhões
de trabalhadores. O assédio sexual, nas instituições (estatais ou civis), é
outro mal que assombra a sociedade burguesa e atinge milhares de mulheres.
Outras práticas semelhantes (como perseguição, abuso de poder, autoritarismo,
que atingem usuários, estudantes e diversos outros setores da população) convivem
com elas. Elas proliferam como erva daninha nas organizações burocráticas,
especialmente nas instituições estatais e empresas capitalistas.
A legislação brasileira compreende o assédio moral como atos
caracterizados por condutas repetitivas que expõem os trabalhadores a situações
constrangedoras, humilhantes e degradantes que afetam a sua dignidade e o
bem-estar psíquico. O assédio sexual é qualquer conduta de conotação sexual que
crie constrangimento à vítima a partir de pessoas que possuem uma posição hierárquica
superior e usam, ou podem usar, isso como forma de tentar conseguir alguma “retribuição”
sexual. A legislação, no entanto, não abole tais relações sociais, embora as
dificulte em certos contextos e permita sua denúncia e encerramento em outras.
Porém, muitas vezes, apesar de dezenas de processos contra determinados
indivíduos, eles ficam impunes e, muitas vezes, continuam com suas práticas
execráveis.
Nesse sentido, o Movaut (Núcleo de Goiás) vem se posicionar
a respeito da questão do assédio. Isso, em nível geral, é, obviamente,
desnecessário, tendo em vista que se trata de um movimento anticapitalista e a
favor da humanização integral. Essas práticas são condenáveis em si e são
frutos da sociedade capitalista, que cria pessoas destruídas psiquicamente,
miséria sexual, miséria ética, relações de poder e hierarquias, competição,
burocratização, mercantilização, e diversos outros elementos que explicam a existência
de indivíduos que realizam tais práticas e suas razões, bem como instituições e
relações sociais que permitem e, em certos casos, incentivam tais barbaridades.
A sociabilidade capitalista fundada na mercantilização (que traz o predomínio
do dinheiro e dos valores culturais do ter ao invés do ser, bem como
dependência financeira e diversos outros elementos), na burocratização
(relações de poder e hierarquia, que criam uma pirâmide institucional e
beneficia os poderosos e seus assessores em detrimento dos trabalhadores, das
mulheres, das crianças, etc.), na competição (que gera a ânsia de submeter ou
ser superior aos demais, valores como “vencer a qualquer custo”, etc.), é a
base desses processos degradantes das relações sociais e interindividuais nas
instituições, empresas, etc. O capitalismo produz as bases para a existência
dos carrascos e suas motivações, bem como situações em que se prolifera vítimas
potenciais, falsas soluções, falsas acusações, etc.
É preciso esclarecer que não somos ingênuos. O assédio, os
assediadores e os assediados, são produtos do capitalismo. Isso significa que
existem os paliativos – a legislação é um exemplo –, mas não a solução do
problema, pois as relações sociais que geram e reproduzem as práticas
condenáveis continuam existindo e o medo da punição e a efetivação da punição
podem diminuir um pouco a sua ocorrência (ou mudar sua forma), mas não as
abolir. Assim, é preciso “cortar o mal pela raiz” e este é o capitalismo. Por outro
lado, também não acreditamos que, devido a isso, é necessário apenas combater o
capitalismo e deixar o terreno livre para que os desequilibrados mentais e
fanáticos pelo poder e dinheiro, entre outros, possam realizar sem obstáculos suas
práticas detestáveis, geradoras de outros problemas (principalmente para suas
vítimas).
Existem, portanto, duas lutas para serem travadas. A
primeira, que é prioritária e fundamental, a luta contra a sociedade que cria o
assédio; a segunda, de suma importância, contra a existência do assédio,
especialmente sob forma preventiva ao invés de simplesmente punitiva. Afinal,
quem em sã consciência iria preferir que um ato deplorável como o homicídio
ocorra para depois realizar a vingança ao invés de evitá-lo? Essas duas lutas
não são opostas e se complementam. Porém, é preciso politizar a luta contra o
assédio, inserindo-o no contexto da sociedade que o produz. Nesse sentido, não
se trata de proposta moralista que visa impor normas de comportamento e sim
estratégia de luta que visa combater efetivamente esse problema.
O que pode ser feito de imediato contra o assédio? O
processo de formação é fundamental, em uma sociedade que com toda a sua
capacidade tecnológica e comunicacional, faz os indivíduos perderem horas e
mais horas com coisas banais ao invés de aumentar sua bagagem cultural e
formação intelectual. É preciso que ao invés de temas irrelevantes que existem
e são discutidos em todas as instâncias do ensino, embora em algumas
universidades a repetição de temas subjetivistas e moralistas (a fixação na “sexualidade”
por parte de alguns setores da sociedade beira ao absurdo) “brotam como
cogumelos depois da chuva”. Um uso mais politizado e refletido da internet, que
seria incentivado por um avanço educacional e formativo, bem como grupos de
estudos, coletivos de protesto e fiscalização, entre diversas outras
iniciativas na sociedade civil, seriam fundamentais para desencadear uma luta
cultural e politização da questão do assédio.
Essa formação ocorreria com reflexões sobre o que é o
assédio, suas formas, suas determinações (esse é um tema sempre evitado, pois,
numa análise profunda, vai mostrar as raízes sociais desse e de outros
fenômenos paralelos), as formas de o evitar e combater, etc. O assédio não é um
produto de indivíduos que, arbitrariamente, resolvem assediar outras pessoas, pois
tem raízes sociais, psíquicas, culturais, derivadas de uma sociedade mórbida. Nesse
sentido, a luta contra o assédio, que é preventiva, educativa, punitiva, etc.,
também é, fundamentalmente, uma luta contra a sociedade mórbida que o cria.
Por outro lado, outros problemas derivados emergem e não
podem ser omitidos. No capitalismo, a sociabilidade capitalista é generalizada
e a mentalidade burguesa atinge a todos, com graus diferentes, mas ninguém
escapa totalmente. Assim, existem os usos oportunistas do problema do assédio e
processos semelhantes por aqueles que querem vantagens competitivas, dinheiro e
outras coisas, gerando acusações falsas. Isso já ocorre com outras
manifestações de crimes (homicídio, estupro, etc.), mas é mais fácil e comum no
caso do assédio. Por isso é preciso combater os oportunistas e suas acusações
falsas, pois comprometem as vítimas dos casos verdadeiros, dificultando o
processo de reconhecimento, prejudicando pessoas inocentes, etc. Usar uma reivindicação
justa que é combater o assédio para ganhar vantagens pessoais (ou descarregar
seu ódio, inveja, etc.) é algo tão nefasto quanto o próprio assédio. Assim, o
combate aos usos oportunistas de acusação de assédio (e todas as falsas
acusações em geral) é uma necessidade, bem como é preciso tomar cuidado antes
de acatar as acusações, sendo necessário provas e verificação, assim como
direito de defesa do acusado. Isso já existe nas normas jurídicas burguesas,
mas o “espírito de rebanho” e a falta de “senso crítico” é um problema grave na
sociedade atual, ao lado dos problemas já aludidos de formação intelectual e
despolitização da sociedade. A internet e a redes sociais virtuais, que
poderiam ser valiosos instrumentos de comunicação, formação e politização,
muitas vezes se transformam em similares das velhas arenas romanas nas quais o
“pão e circo” predominavam e geravam selvageria e euforia mórbida. Assim, a
luta cultural em torno da formação e esclarecimento mais amplo e politizado
sobre o assédio se torna fundamental para evitar a simplificação e
transformação de uma luta justa em práticas injustas.
Precisamos também destacar a questão dos revolucionários,
tais como os militantes do Movaut, como indivíduos concretos de carne e osso e
formados por essa sociedade, diante do problema do assédio. Os revolucionários
são, historicamente, um dos setores da sociedade mais perseguidos e, por
conseguinte, vítimas de assédio (moral, no caso). A suposta “democracia”, bem
como as burocracias e instituições em geral, rejeita aqueles que são
revolucionários (que deve ser entendido no sentido de que são indivíduos que
lutam por uma nova sociedade, e não, como alguns pensam equivocadamente,
“pessoas que realizam luta armada para derrubar governos e conquistar o poder”).
O assédio, às vezes sutil, às vezes desavergonhadamente explícito, ocorre
cotidianamente, em muitos casos, em relação aos revolucionários.
É preciso diferenciar, no entanto, revolucionários de
reformistas e progressistas em geral. Os autogestionários lutam por uma
sociedade autogerida e por isso não buscam cargos, ganhar eleições, poder, etc.
Bem como, se não forem limitados e contraditórios, não defendem valores
dominantes como riqueza, poder, etc. Claro está que nenhum revolucionário é
perfeito e consegue superar todas as imposições culturais, valorativas,
sentimentais, da atual sociedade, mas, por coerência e esforço próprios, deve
ter isto pelo menos em menor grau. Ser revolucionário requer uma luta consigo
mesmo, árdua, cotidiana, dolorosa, nem sempre vitoriosa. Por outro lado, é
ingenuidade achar que a autodeclaração de ser revolucionário ou o pertencimento
a um coletivo ou a filiação a uma tradição revolucionária significa que o
indivíduo concreto o é realmente. Nem mesmo as organizações revolucionárias
conseguem garantir isso, pois no interior de cada coletivo existem indivíduos
diferentes com processos históricos de vida distintos, com avanços e recuos em
setores diferentes da vida, com contradições e personalidades específicas, bem
como diferenças entre os iniciantes com sua formação inicial, alguns mais experientes
com seus limites não superados, etc.
Uma organização revolucionária, assim como todos aqueles que
buscam, mesmo que individualmente, a transformação radical e total da
sociedade, precisa se comprometer a realizar um processo de reflexão sobre tais
problemas. E cabe a cada militante, efetivar um constante processo de autoanálise
e autocrítica. Além disso, podem e devem buscar ajuda dos colegas de luta
quando precisar, assim como incentivar e estabelecer relações de solidariedade
ao invés de competição, acreditar e apoiar os elementos potenciais benéficos de
cada indivíduo e questionar e combater os aspectos problemáticos quando
necessário, mas sempre sob forma racional, reflexiva e com autocrítica. Não
cabe exigir perfeição, mas também não é possível aceitar todas as imperfeições
e elementos que destoam do que é básico para uma ética revolucionária, dentro
do contexto em que cada questão emerge.
Essas reflexões todas apontam para a necessidade de
aprofundar a reflexão sobre o assédio e a luta contra ele, que tem várias
facetas e é um fenômeno complexo. A luta contra o assédio faz parte de uma luta
muito maior, que é a transformação radical do conjunto das relações sociais,
sua fonte produtora, bem como inúmeras outras lutas vinculadas e que apontam
para o processo de humanização da sociedade. O nosso objetivo aqui foi nos
posicionar diante desse fenômeno e, ao lado disso, mostrar sua problemática e
como esse tema precisa ser politizado e ampliado, visando conseguir avançar na
luta contra o assédio e no combate pela sociedade autogerida.
Movaut/GO*
Goiânia,
Novembro de 2025
https://redelp.net/index.php/renf/article/view/1653
